Acontece

Como faço para escrever sobre vinho?

Quem aprecia vinho gosta de compartilhar experiências. Não por acaso, brancos, tintos, rosés e espumantes se tornam pretexto para amigos e familiares organizarem os mais diferentes tipos de reuniões. Em outras ocasiões, invariavelmente, o vinho é assunto nas rodas de conversas, principalmente quando se está à mesa, assim como tem seu espaço cativo em linhas do tempo de redes sociais.

Mas há aqueles que querem ir além. Querem escrever sobre o que viveram e o que sabem ou aprenderam sobre o vinho. Querem ter um blog, um site ou, quem sabe, escrever para veículos de comunicação de grande porte, incluindo publicações especializadas. E aí, o que eu faço? Como devo proceder?

A escrita

Bom, o primeiro passo é avaliar sua escrita. Domino a língua com a qual pretendo me comunicar, seja português, espanhol, italiano, inglês ou francês? Normalmente, quem tem o hábito de ler e usa o texto no dia a dia de trabalho está mais que credenciado. É só uma questão de adaptar a linguagem, e torná-la menos automática e mais envolvente.

Agora, se não estiver seguro, existem disponíveis no mercado livros e cursos variados de redação.  “A escrita é como uma piscina… você pode colocar só o pé para sentir a temperatura, pular da beirada na parte rasa ou saltar de um trampolim e mergulhar fundo”, ensina a jornalista Ana Holanda, editora-chefe da revista Vida Simples e autora do livro “Como se Encontrar na Escrita – o caminho para despertar a escrita afetuosa em você” (editora Rocco/Bicicleta Amarela). “Temos de mergulhar fundo na escrita, sem nos escondermos atrás de personagens. O grande valor de uma história está justamente na valorização que o autor dá à sua própria história, a suas próprias experiências”.

O que escrever?

O segundo passo é se perguntar o que quer escrever e para quem. As possibilidades de abordagens são tantas quanto o número de uvas usadas para se produzir vinhos. Para citar alguns exemplos, tem gente que se encontrou relatando viagens a regiões vitivinícolas mundo afora, investindo em algo como um diário de bordo, enquanto outros preferem apenas compartilhar suas impressões ao realizar degustações, seja de um rótulo ou temáticas.

Até aqui estamos falando de apreciadores de vinho que querem simplesmente registrar passagens importantes em sua imersão no mundo enogastronômico. Mas existe um passo além, que vale para aqueles com algum conhecimento mais técnico.

Especialistas

São pessoas que se enquadrariam no perfil de formadores de opinião. Isso valeria, por exemplo, para enólogos, sommeliers, degustadores com certificado WSET (Wine & Spirit Education Trust) ou outro, chefs de cozinha, profissionais do mercado de vinho e enófilos com boa experiência.

O desafio para um especialista é saber como se posicionar e com que propósito. Também precisa traçar seus caminhos. O mundo da comunicação é vasto. Se a intenção é se tornar um “influenciador digital”, conseguirá isso com um blog ou mesmo nas redes sociais. Para os mais ambiciosos, talvez um site.

Disciplina

O importante aqui é saber que isso exige disciplina, gestão de tempo, organização, atualização contínua e comprometimento, além de intimidade técnica com a internet e suas diferentes plataformas. Para quem está sozinho nessa empreitada, é preciso cuidado adicional com a revisão de conteúdo, sobretudo texto.

Use o dicionário sempre, troque termos difíceis por palavras conhecidas em caso de dúvida, prefira usar um software de texto para produzir o conteúdo (como o Word), considerando seus alertas de erro (não cegamente!), e releia, releia e releia o que escreveu – três vezes, no mínimo, se possível, com espaçamento duplo e zoom na página. E não deixe de se certificar de que nomes, datas e informação estão corretos e grafados como se deve.

É preciso estar atento também com questões como direitos autorais. Como deve supor, não se pode simplesmente copiar e colar algum conteúdo sem, ao menos, dar o crédito. Se o seu projeto tem fins comerciais, a situação é ainda mais restritiva. Isso vale para texto, fotos e vídeos.

Colaboração

Um modelo muito comum de escrita é o de colaboração. Alguns especialistas são convidados por uma determinada publicação para escrever um artigo, remunerado ou não, depende da negociação. Eles também podem oferecer a colaboração. Com o tempo e a experiência, um caminho natural para quem escreve sobre vinho é publicar um livro.

Seja qual for seu caminho, nunca perca de vista a responsabilidade que você tem sobre tudo o que escreve. É diferente de uma conversa privativa. O que publicar será público e sujeito ao escrutínio de todos, já que pode afetar pessoas, empresas e demais organizações. Tenha parcimônia ao opinar para não incorrer nos clássicos problemas de calúnia, injúria e difamação. Sem perder de vista que a credibilidade de um autor está na qualidade do que escreve e, portanto, na precisão de suas informações. No mundo da escrita, a reputação de um nome conta muito.

Boa sorte.

 

DEPOIMENTOS

 

Texto tem de ser claro

Suzana Barelli

Escrevi meu primeiro artigo sobre vinho em alguma data entre 1994 e 1995, quando eu era repórter de economia na Folha de S.Paulo. Naquela época, o vinho não era um tema tão comentado ou descrito como é hoje, e as fontes de informação eram bem mais escassas e difíceis de serem acessadas. Hoje, troco mensagens via WhatsApp com enólogos para confirmar uma informação, mas, quando comecei, era por telefone, fax, em respostas que nunca chegavam… Em época de colheita, então, era quase impossível achar o produtor para a entrevista ou para confirmar uma informação.

Desde este início, eu segui uma máxima do jornal que é/era o “didatismo”: o texto tem de ser claro, didático. Nada de textos prolixos, do uso de palavras rebuscadas ou dos jargões do setor. E sempre valorizando a informação e sua clareza. Estas premissas podem parecer óbvias, mas não são tão simples assim na hora de colocar as ideias no papel. É mais fácil colocar vários adjetivos no texto do que trazer uma informação mais clara ao leitor.

Outra preocupação que me acompanha desde sempre é a veracidade da informação. Só escrever aquilo que foi checado, confirmado, mesmo que “em off” (jargão jornalístico usado quando uma fonte fornece uma informação, mas pede anonimato). E conferir as grafias de tudo. Se você erra o nome de um vinho ou de uma região, mesmo que seja um errinho de digitação, isso passa para o leitor uma sensação de desconfiança de toda a reportagem. Com essas premissas, é partir para a busca das boas histórias do vinho e, por sorte, elas são muitas.

Suzana Barelli, jornalista, especializada em vinho. Escreve sobre vinhos regularmente desde o ano 2000 em publicações como Revista Menu (foi diretora de redação e editora de vinhos), Prazeres da Mesa (secretaria de redação), jornal Valor Econômico (repórter), Folha de São Paulo (repórter), revista Primeira Leitura (colunista), além de colaborar com publicações como revista Gula e MastercardBlack, entre outras.

Siga sua paixão

Daniel Perches

Comecei meu blog em 2009, após fazer um curso básico de vinhos na ABS-SP. Terminei o curso pensando que poderia organizar os vinhos que degustei e compartilhar um pouco do que tinha aprendido com outras pessoas. O projeto foi crescendo e hoje tem 10 anos, mais de 3.000 posts publicados e muitos litros na bagagem. Acredito que, para quem deseja começar a escrever sobre vinhos hoje, alguns pilares são muito importantes: técnicas de degustação, informação correta e de qualidade e compromisso com a verdade. Aprender como degustar, entender as diferentes regiões, formas de produção, técnicas e até conhecer o mercado são essenciais para que se possa transmitir algum conhecimento que seja realmente útil para os leitores.

Daniel Perches, autor do blog Vinho da Corte e criador do projeto Encontro de Vinhos, que roda o Brasil com eventos sobre vinhos. Também é colaborador de diferentes publicações escrevendo sobre vinho. Trabalhava como publicitário em diferentes agências antes de ingressar no mundo da enogastronomia, justamente depois de cuidar da conta de uma vinícola. No currículo, além do curso básico da ABS, tem formação WSET e de sommelier.

 

 



Assine Nossa Newsletter

e receba novidades, promoções e convites para eventos da importadora Winebrands