Sommelierie

Os diferentes tamanhos das garrafas de vinho

Com formatos variados e nomes muitas vezes inspirados em personagens bíblicos, elas armazenam até 30 litros de vinho e ajudam a explicar a história desta bebida venerada desde tempos remotos

Por Giuliano Agmont

As garrafas usadas para envasar os vinhos que bebemos hoje em dia nasceram da combinação de dois marcos tecnológicos da indústria vitivinícola. No princípio, os produtores estocavam a bebida em grandes recipientes, principalmente toneis e barricas. As coisas começaram a mudar quando se percebeu que vasilhames de vidro favoreciam a guarda e facilitavam a distribuição do vinho.

Na Inglaterra do século 17, onde já se dominava técnicas mais baratas para produção de vidro – utilizando fornos de carvão –, a descoberta permitiu que se fabricasse em larga escala garrafas espessas e resistentes o suficiente para armazenar e transportar vinho. Paralelamente, surgiam as rolhas de cortiça, que garantiam uma melhor conservação da bebida, facilitando a vida de revendedores e consumidores.

O padrão

De lá parta cá, as garrafas de vinho de vidro vedadas com rolhas de cortiça não só se proliferaram e dominaram completamente o mercado como assumiram diferentes formatos (Bordeaux, Borgonha, Champagne e Alsácia) e variados tamanhos.

O modelo padrão de garrafa adotado pelas vinícolas, de 750 mililitros, acredita-se, também nasceu de uma necessidade um tanto prosaica de mercadores ingleses. As barricas usadas pelos produtores franceses de Bordeaux tinham desde aquela época 225 litros, o que significava exatamente 300 garrafas de 750 mililitros. Ou seja, era uma questão prática, matemática, facilitando cálculos e negociações entre países com métricas diferentes: um tonel equivalia a 300 garrafas.

A partir da garrafa padrão vieram derivações, menores e maiores – algumas bem maiores! Apesar da enorme variedade, o que se encontra no mercado são basicamente garrafas de dois tamanhos além da versão tradicional, uma com metade do seu conteúdo (meia garrafa) e outra com o dobro (a celebrada Magnum).

Raríssimos, os vinhos envasados em garrafas maiores costumam ser comemorativos ou provenientes de safras especiais. Há quem diga que os vinhos envelhecem melhor em garrafas maiores por conta da menor quantidade proporcional de ar, mas o tema é controverso.

Como é o serviço?

Na prática, o fato é que o serviço de garrafas gigantes, acima de três litros, revela-se bem mais complicado, mas também espetaculoso. Normalmente, são vinhos cuja abertura vira um acontecimento em eventos de gala.

O sommelier sai de trás do balcão para abrir o vinho no meio do salão principal da festa. Para isso, precisa de um suporte especial (ou de um ajudante). O suporte tem um mecanismo parecido ao de uma gangorra. Ele permite que se vire a garrafa para servir o vinho sem que se faça muita força.

O sommelier também precisa ter atenção especial a outros aspectos. Um deles é a temperatura da bebida, que tem um padrão de resfriamento diferente, por causa do volume de vinho e da espessura do vidro. O mesmo se aplica à rolha, que muitas vezes exige o reforço de cera e requer cuidado ao ser aberta para manter sua integridade e evitar que algum material caia dentro da garrafa.

Nomes bíblicos

Os nomes das garrafas evocam personagens bíblicos e suscitam histórias divertidas. Uma delas tem a ver com provas de sommelier. Assim como acontece com vestibulandos nos cursinhos da vida, muitos sommeliers decoram uma frase para se lembrar dos nomes das garrafas no momento do teste: “Michael Jackson really makes small boys nervous”. Longe de ser politicamente correta (já que faz alusão às acusações de pedofilia contra Michael Jackson), a frase contém as iniciais de cada garrafa: Magnum (1.5 litro), Jeroboaõ (3 litros), Reoboão (4,5 litros), Metusalém (6 litros), Salmanasar (9 litros), Balthazar (12 litros) e Nabucodonosor (15 litros).

Mas estes não são os únicos tamanhos. Existem outros, menores e maiores. Preparamos aqui uma lista com todos e as histórias por trás de cada nome, sobretudo os que se referem aos primeiros livros da Bíblia, em especial aos reis de Israel. Um detalhe importante: consideramos a dosagem de 150 mililitros por taça (corresponde a um terço de uma taça padrão de 450 mililitros), que é o recomendável para se degustar um vinho. 

TAMANHOS TRADICIONAIS

Split, Pony ou Piccolo

Volume: 187,5 ml
Proporção: ¼ da garrafa padrão
Serve: pouco mais de 1 taça

Piccolo, do italiano, significa pequeno. Já split, do inglês, quer dizer dividido. E pony se refere a pônei. As traduções explicam o nome desta garrafa. É um recipiente de dose única, utilizado quase exclusivamente para vinhos espumantes.

Metade, Demi ou Fillette

Volume: 375 ml
Proporção: Meia garrafa padrão
Serve: 2 taças e meia

É o equivalente à dose diária recomendada de vinho para uma vida saudável. Também é uma excelente opção para quem quer compartilhar só uma taça de um rótulo especial com alguém.

Padrão

Volume: 750 ml
Proporção: 1 garrafa padrão
Serve: 5 taças

É a garrafa universal, adotada por todas as vinícolas do mundo.

Magnum

Volume: 1,5 l
Proporção: 2 garrafas padrão
Serve: 10 taças

Sucesso em leilões de colecionadores e ocasiões comemorativas, a Magnum tem o dobro de capacidade da garrafa padrão, daí seu nome, derivado de uma expressão do latim, que quer dizer “grande”.

Jeroboão ou Double Magnum

Volume: 3 l
Proporção: 4 garrafas padrão
Serve: 20 taças

Em Bordeaux, é chamada Double Magnum e usada para envasar vinhos tranquilos. Em Champagne e na Borgonha, recebe o nome Jeroboão, mais utilizada para espumantes. Com quatro vezes mais capacidade do que a garrafa padrão, a Jeroboão faz referência ao primeiro rei de Israel depois da divisão do reino. Com a morte do rei Salomão, Jeroboão, um inimigo que teria se refugiado no Egito e se tornado faraó, liderou uma revolta contra o herdeiro natural, o filho do rei, Roboão, e constituiu um reino independente.

Roboão (Jeroboão em Bordeaux)

Volume: 4,5 l
Proporção: 6 garrafas padrão
Serve: 30 taças

Roboão era filho de Salomão e neto de Davi (sim, o que venceu Golias) e se tronou rei da Judeia após a morte do pai, mesmo com a revolta liderada por Jeroboão (também conhecido por Sisaque). É um tamanho de garrafa usada sobretudo para servir grandes quantidades de espumantes. Na Borgonha, também é usada para vinhos tranquilos. Em Bordeaux, garrafas de quatro litros e meio (ou cinco litros) recebem o nome de Jeroboão.

Matusalém ou Imperial (Bordeaux)

Volume: 6 l
Proporção: 8 garrafas padrão
Serve: 40 taças 

O nome desta garrafa usada principalmente para espumantes evoca mais um personagem bíblico, um patriarca de Jerusalém. Ele não foi rei, mas tem muita história. Seu neto, Noé, teria sido o primeiro homem a cultivar videiras no planeta. Matusalém também teria sido o homem que mais tempo viveu. Morreu aos 969 anos, exatos seis dias antes do Grande Dilúvio, do qual seu neto foi o único sobrevivente. Em Bordeaux, as garrafas de seis litros são chamadas Imperial.

Salmanasar

Volume: 9 l
Proporção: 12 garrafas padrão
Serve: 60 taças

Na sequência das garrafas gigantes, uma homenagem a um rei da Assíria, que teria expulsado os israelitas de seu reino. Ele foi o quinto rei de seu povo e o primeiro a conquistar a Samaria (fundada por Jeroboão). Também é lembrado como grande construtor.

Balthazar

Volume: 12 l
Proporção: 16 garrafas padrão
Serve: 80 copos de vinho

Balthazar é citado na Bíblia como o último rei de Babilônia. Achando que as muralhas da cidade eram intransponíveis, ele teria promovido grandes banquetes enquanto estava sob cerco das tropas persas, chegando ao cúmulo de estar dançando no palácio no momento em que os exércitos do rei Ciro rompiam os portões da Babilônia. Filho de Nabucodonosor, ele teria servido grandes quantidades de vinho em taças sagradas dos templos de Jerusalém, para honrar os deuses babilônicos, o que teria despertado a ira de Deus. Muitos acreditam que Balthazar poderia ser um dos três reis magos, mas nada consta sobre isso nas escrituras sagradas.

Nabucodonosor

Volume: 15 l
Proporção: 20 garrafas padrão
Serve: 100 taças

Pai de Balthazar, Nabucodonosor ficou famoso por ter construído os “Jardins Suspensos da Babilônia”. Sob seu comando, a Babilônia se tornou o maior centro cultural do mundo ocidental. Seus exércitos destruíram o Templo de Jerusalém, erguido por Salomão, e exilou boa parte do povo judeu.

Salomão ou Melquior

Volume: 18 l
Proporção: 24 garrafas padrão
Serve: 120 taças

São duas caixas de vinho pesando mais de 40 quilos reunidas em uma garrafa, batizada Melquior ou Salomão. Melquior é uma referência a um dos reis magos. Já Salomão, filho de Davi, foi um dos mais famosos, ricos e sábios personagens bíblicos, com referências a seu reinado em diversas culturas.

Sovereign

Volume: 26,25 l
Proporção: 35 garrafas padrão
Serve: 175 taças

O nome desta garrafa não tem inspirações bíblicas. A Sovereign, que quer dizer soberano, foi criada pela Taittinger nos anos 1980 com uma finalidade específica, ser servido no maior navio de cruzeiro da época, o MS Sovereign.

Golias, Primat ou Parmount

Volume: 27 l
Proporção: 36 garrafas padrão
Serve: 180 taças

Aqui já são três caixas de vinho em uma garrafa de dimensões supremas. O nome não poderia ser mais adequado, inspirado no gigante filisteu derrotado por Davi, o rei que uniu todas as tribos em torno de Israel. Segundo os textos sagrados, Golias teria quase três metros de altura, o homem mais alto da Terra.

Melquisedeque ou Midas

Volume: 30 l
Proporção: 40 garrafas padrão
Serve: 200 taças 

Uma garrafa superlativa, com vinho suficiente para servir duas taças para 100 convidados em uma festa. Na mitologia, Midas é uma referência ao personagem que transformava em ouro tudo o que tocava. Já Melquisedeque é mais controverso. Como não há referências sobre sua origem, fala-se até que seria uma aparição de Cristo bem antes de seu nascimento. Teria dado pão e vinho a Abraão, patriarca a quem Deus teria prometido a Terra.

 

OUTROS TAMANHOS

Cilindro

Volume: 100 ml
Proporção: Menos de 1/7 de uma garrafa padrão
Serve: dois terço de 1 taça

Tem o formado de um tubo de ensaio. Seria uma porção individual de amostragem principalmente de vinhos fortificados, em particular os da região de Tokaj, na Hungria, e Sauternes, na França.

Chopine

Volume: 250 ml
Proporção: Um terço da garrafa padrão
Serve: pouco mais de 1 taça e meia

Formato de garrafa raro, mais usado na França, porque é uma métrica criada e adotada por lá.

Clavelin Half

Volume: 310 ml
Proporção: Pouco menos de meia garrafa padrão
Serve: 2 taças

Usado para Vin Juane, o vinho amarelo da região do Jura da França.

Jeanne

Volume: 500 ml
Proporção: ⅔ garrafa padrão
Serve: 3 taças e um terço

Tamanho adotado principalmente para vinhos fortificados, ótimos para harmonizar com sobremesas. Destaque para os húngaros Tokaj, os franceses Sauternes e os espanhóis Sherry (da região de Jerez).

Clavelin Full

Volume: 620 ml
Proporção: 0,8 da garrafa padrão
Serve: pouco mais de 4 taças

Também usado para armazenar o Vin Juane. O tamanho da garrafa representa a quantidade de vinho que sobra após seis anos de envelhecimento em um barril padrão da região do Jura.

Litro

Volume: 1 litro
Proporção: 1 garrafa padrão e um terço
Serve: pouco mais de 6 taças e meia

Um tamanho que ganhou popularidade nos últimos anos, principalmente entre alguns vinhos europeus de maior valor agregado e na Califórnia. Existem exemplares curiosos com tampas de metal, como as de garrafas de cerveja.

Marie-Jeanne

Volume: 2,25 l
Proporção: 3 garrafas padrão ou 1 Magnum mais 1 padrão
Serve: 15 taças

É um tamanho de garrafa raro, só utilizado em Bordeaux.

Beringer

Volume: 130 l
Proporção: 173 garrafas padrão
Serve: 1.200 taças

Uma garrafa de 4,5 metros de altura com 130 litros de vinho foi a maior da história. Encomendado pela Morton’s Steakhouse em 2004, o Beringer Vineyards 2001 Napa Valley Cabernet Sauvignon Reserve bateu um recorde que dificilmente será superado.

 



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