Restaurantes

Gastronomia sem frescura

Por Giuliano Agmont / fotos Divulgação (CNN)

“A comida sempre foi cultura, e Anthony Bourdain foi o cara que resolveu deixar isso muito claro”. Desde sua morte, muito se falou sobre a vida e a obra deste cozinheiro que rompeu as barreiras da gastronomia com seu jeito debochado. Mas só um bate-papo franco com um dos jornalistas que mais conhece comida no Brasil poderia revelar a essência de um saboroso personagem, fruto de seu tempo.

“Sempre foi um porra-louca, uma espécie de beatnik dos anos 80, como muitos dos que cresceram naquela Nova York abundante em drogas e escassa em limites”, descreve Robert Halfon, diretor de redação da revista Sabor.Club, que esteve com Bourdain em uma de suas passagens pelo Brasil, no litoral de São Paulo. “Um sujeito educado, fácil no trato, amigo, divertido, e comum… Mas muito inteligente, com uma grande bagagem. Agora, sabe aquela história do ‘perde o amigo, mas não perde a piada’? Isso era Anthony Bourdain”.

Paulo Francis

Pergunto o que beberam e a resposta não poderia ser mais convidativa. Sim, vinho. “Conversamos bastante, do restaurante à praia. Ele se mostrou interessado no que estava ali, no que aquele momento pedia, vinhos frescos e leves, e gelados. Que pudessem ser bebidos sem frescura, como se faz com a cerveja”.

Na opinião de Halfon, por trás do deboche de Bourdain havia muita perspicácia. “Ainda que realmente fosse debochado, ele usou o deboche para deixar claro que, ‘cara, isso é frescura, não interessa, não para mim, gastronomia não é só isso’. Foi assim que Bourdain criou um personagem, nos livros e na TV, ele mesmo afirmava isso. Era um Paulo Francis”.

Na prática, o chef badalado de Manhattan que se tornou escritor de sucesso e depois apresentador de TV desmistificou o aspecto sisudo, pesado e exclusivista da cozinha. Com seu livro “Cozinha Confidencial”, de 2000, mostrou os “podres” por trás dos luxuosos salões de restaurantes tidos como sofisticados e gastronômicos (caros, na verdade). Se valendo de uma experiência de mais de duas décadas e da fama que havia conquistado – holofotes, restaurante cheio, fotos com clientes… –, ele se tornou o avesso de si mesmo e descobriu um novo caminho longe do fogão.

“Um agente da gastronomia, com identificação pela simplicidade”, resume Robert. “Um sujeito mais interessado em pessoas, procurando desvendar de onde vem a comida e o que orbita em torno dela, do que exatamente numa glamorização, cheia de códigos e pratos mirabolantes. Mais interessado em comer uma massa al cacio e pepe bem feita do que um prato cinco estrelas de altíssima gastronomia”.

Praça Onze

Como apresentador da CNN, ele mostrou que o cozinheiro da rua também é muito interessante. E fez isso de uma forma divertida, inusitada, numa época em que ninguém falava de gastronomia como se fala hoje. Era só um “maluco” viajando o mundo, circulando em todos os meios, sem endeusar ninguém, tomando uma sopa na Praça Onze do Rio e caldos exóticos pela Ásia, mostrando que não é preciso aquele código fechado de restaurante para se comer bem, basta responsabilidade, produtos decentes, comprometimento e paixão pelo que se põe na panela. “Essa é a essência. O resto é frescura mesmo. É legal que tenha frescura. Mas é frescura. Ele escancarava isso. E foi ouvido porque tinha a credibilidade de alguém que havia circulado por todos os meios da gastronomia”.



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