Sommelierie

Degustação às cegas: um instrumento válido?

por Arthur Azevedo*

Há algum tempo, têm proliferado no mercado as tais degustações às cegas, para teoricamente colocar frente a frente, sem que os degustadores saibam, vinhos de diferentes origens e até de uvas diferentes. Os resultados, com ampla divulgação na mídia, são então usados em dispendiosas campanhas de marketing, isso sem contar com todos os altos valores gastos para organizar tais eventos, muitas vezes realizados em hotéis de luxo, com grande pompa e circunstância.

Refletindo sobre o tema, que tem sido alvo de controvérsias e acirradas discussões, pensamos estar havendo uma distorção do conceito clássico de degustação às cegas. Em nosso modo de ver, tudo isso começou com o famoso Julgamento de Paris, realizado na França em 1976, durante o qual foram colocados vinhos franceses e americanos em uma degustação às cegas, sendo que os americanos levaram vantagem sobre os franceses. Não vale a pena aqui discutir o que houve naquela ocasião, mas para nós ficou evidente que o critério de escolha dos vinhos foi feito de modo a favorecer os americanos.

Isso vem corroborar nossa postura com relação às degustações às cegas, que devem servir para comparar vinhos que sejam comparáveis, tanto com relação à sua região de origem, composição, técnica de vinificação e safra, como quanto à sua faixa de preço. A única coisa que deve permanecer oculta para os degustadores é a identidade do produtor. Além disso, o grupo de degustação deve ter experiência suficiente para analisar os vinhos tecnicamente, com uso de ficha de degustação adequada, para se escapar da (quase) inevitável armadilha do famoso “gosto pessoal”, que fica muito bem colocado numa degustação hedonista, do tipo “gosto – não gosto”, de pouco ou nenhum valor para os consumidores.

Samba do crioulo doido

O que se vê na prática é quase, citando o eterno Stanislaw Ponte Preta, o “Samba do Crioulo Doido”, colocando-se lado a lado vinhos de Pinot Noir da França com vinhos de Tannat do Uruguai, dentro de aberrações como – “Vinhos tintos abaixo de R$ 50,00”. Quando se parte para esse tipo de comparação, é perfeitamente possível se direcionar o resultado, escolhendo os vinhos de forma a favorecer, direta ou indiretamente determinado grupo de vinhos. Além disso, é óbvio que as preferências da plateia também podem ser de certa forma previsíveis, pois grupos menos experientes e com menos idade tendem, na média, a gostar mais de vinhos mais frutados e menos tânicos, em detrimento de vinhos mais complexos e mais tânicos (seja por sua juventude, seja por sua técnica de vinificação, seja por sua origem).

Outro ponto importante diz respeito aos famosos e prestigiados Premier Grands Crus Classés de Bordeaux, frequentemente escalados nos embates com vinhos do Novo Mundo, seguindo o modelo do Julgamento de Paris. É público e notório que tais vinhos se expressam melhor após muitos anos de guarda e alguns, como Petrus e Latour, raramente são atrativos antes dos 15 a 20 anos de adega. Comparar um vinho destes em seu chamado período de latência (infanticídio consentido) com um vinho do Novo Mundo, frutado e exuberante desde sua mais tenra infância é covardia, quase um jogo de cartas marcadas.

Portanto, caros amigos, não levem muito a sério os resultados dessas degustações às cegas feitas sem critério técnico e claramente inspiradas por táticas de marketing. Vocês podem ser induzidos a erro e dessa forma desprezar vinhos espetaculares, que certamente foram degustados fora do seu melhor momento de evolução. Antes de tudo, experimente, e tire suas próprias conclusões, sem tomar decisões precipitadas e se privar de conhecer alguns dos melhores vinhos do mundo.

* Arthur Azevedo é diretor da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo (ABS-SP) e
editor do website Artwine (www.artwine.com.br)



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