Entrevistas

Uma brasileira no comando da OIV

Nascida em Santa Catarina, na cidade de Braço do Norte, Regina Vanderlinde acaba de ser eleita presidente da OIV, a Organização Internacional da Vinha e do Vinho, entidade com sede em Paris que atua mundialmente em todos os domínios da uva e do vinho desde 1924. Formada em Farmácia Bioquímica Tecnologia de Alimentos pela Universidade Federal de Santa Catarina, ela trabalhou por dois anos em vinícolas em Caxias do Sul antes de viajar para a França, já certa do que estudaria. Fez mestrado e doutorado em Enologia-Ampelologia na Universidade de Bordeaux e morou por lá durante seis anos. De volta ao Brasil, tornou-se professora na Universidade de Caxias do Sul (UCS) e ajudou a criar o Laboratório de Referência Enológica do Estado do Rio Grande do Sul e o Instituto Brasileiro do Vinho, que administrou por 17 anos. Em 2001, passou a atuar como delegada do Brasil na OIV. Ocupava o posto de secretária científica da Subcomissão de Métodos de Análise quando venceu a eleição para chegar à presidência da entidade. Regina Vanderlinde, que está com a vida mais agitada do que de costume, reservou um tempinho esta semana para responder a algumas perguntas do blog “Wine Not?”.

Por que escolheu o estudo do vinho como carreira? 

Quando cursava a graduação de Bioquímica Tecnologia de Alimentos em Florianópolis, fui atraída pela área de fermentações. Fiz meu estágio de conclusão de curso em uma vinícola em Caxias do Sul. Lá me apaixonei pelos aromas do vinho e nunca mais o abandonei. Dediquei minha vida profissional à Enologia em suas mais diversas formas. Essa experiência me permitiu ser indicada pelo Ministério da Agricultura do Brasil e eleita presidente da OIV.

Qual é a importância de uma mulher brasileira ocupar esse posto? 

Para a presidência da OIV, o mais importante foi a minha formação, a experiência profissional e o conhecimento sobre a OIV, e isso é independente de gênero. Sou a terceira mulher a ocupar este cargo em sequência. As mulheres estão conquistando mais espaço, como em todas as áreas da sociedade, mas, embora já tenham ocorridos muitas mudanças, ainda trabalham mais homens do que mulheres nos vinhedos e nas empresas vinícolas.

Quais serão as principais metas de sua gestão?

Do ponto de vista técnico e científico, destaco o impacto das mudanças climáticas, a vitivinicultura sustentável, as potencialidades das novas tecnologias e a ampliação do mercado de produtos vitivinícolas, num cenário cada vez mais globalizado, como importantes desafios. Também vamos trabalhar para integrar, ou reintegrar, novos países-membros à OIV. Sempre de modo transparente e aberta ao diálogo, respeitando a diversidade das várias formas de agir e pensar dos seus Estados-membros, mas sempre reunindo vontades para construir consensos.

O que mudou na vida de quem consome vinho?

Houve uma evolução qualitativa em praticamente todas as regiões vitivinícolas do mundo. Também se observou, principalmente nos tradicionais produtores de vinho, uma redução de consumo decorrente de uma elevação dos preços médios. Nas últimas duas décadas, foram ampliadas as metodologias de controle e pesquisas na identificação dos componentes de vinhos e derivados, permitindo um grande avanço na qualidade das bebidas. Ou seja, bebe-se um vinho melhor hoje em dia.

Como pretende melhorar o mercado internacional de vinhos?

Temos de buscar cada vez mais regras claras de produção, uniformes e que sejam adotadas por todos os países, respeitando as especificidades de cada região vitivinícola, possibilitando, assim, uma competição equitativa e equilibrada entre todos os atores do negócio do vinho. Por outro lado, o grande desafio, tanto no Brasil como no mundo, é ampliar o consumo per capta de vinhos.

Como os impostos afetam o consumo de vinho no mundo? E, na outra ponta, como as barreiras tributárias interferem na vida dos produtores?

As barreiras tarifarias dificultam as trocas. Há países que cobram até 100% de imposto de importação sobre o vinho. No Brasil, mesmo com imposto de importação de 20% ou 27%, o crescimento das importações é surpreendente. Em 2017, as importações cresceram mais de 30% e, especificamente da União Europeia, as importações cresceram mais de 70%. Além destes, o tratamento tributário dado ao vinho em muitos países é elevado, afastando os consumidores de menor poder aquisitivo e dificultando o crescimento de mercado.

Para quem gosta de degustar um bom vinho, quais as principais tendências já detectadas pela OIV? 

A OIV é composta de 46 países-membros e 12 organizações observadoras. Cada país tem o seu clima, suas características e sua tipicidade. A OIV acolhe a todos e respeita as suas diferenças. Desde que estes produtos tenham qualidade e genuinidade, todos os produtos são aceitos pela OIV.

 

Fotos: Divulgação (abertura: OIV / Daniela Costa)

 



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